O LOGOS JOANINO
Uma leitura de Jo 1:1-5 a partir dos contextos histórico, literário e teológico.
RESUMO
O artigo analisa Jo 1:1-5 a partir de três vieses interpretativos complementares orientado pela questão: Como ler Jo 1:1-5 à luz de uma abordagem que prioriza os contextos histórico, literário e teológico a fim de compreender melhor o significado do texto especialmente em relação à pessoa de Cristo? A metodologia de pesquisa é qualitativa e bibliográfica e seguirá uma abordagem hermenêutica que analisa o texto sob as três dimensões de leitura supracitadas. No viés histórico, examina-se possíveis influências de Heráclito de Éfeso, do estoicismo e de Fílon de Alexandria sobre a ideia de λόγος. No viés literário, considera-se o uso de Λόγος na literatura joanina e a intertextualidade com Gn 1 e Pv 8. No viés teológico, enfatiza-se a identidade eterna e divina do Λόγος como agente da criação e luz que triunfa sobre as trevas, afirmando o Λόγος encarnado como centro da cristologia e da fé da igreja.
PALAVRAS-CHAVE: Logos (Λόγος); Teologia bíblica; interpretação bíblica; João 1:1-5; Evangelho de João.
ABSTRACT
The article analyses John 1:1-5 from three complementary interpretive perspectives, guided by the following question: How should John 1:1-5 be read in light of an approach that prioritizes historical, literary, and theological contexts in order to better understand the meaning of the text, especially in relation to the person of Christ? The research methodology is qualitative and bibliographical and follows a hermeneutical approach that analyses the text through the three aforementioned dimensions of interpretation. From the historical perspective, possible influences of Heraclitus of Ephesus, Stoicism, and Philo of Alexandria on the idea of λόγος are examined. From the literary perspective, the use of Λόγος in Johannine literature and its intertextuality with Genesis 1 and Proverbs 8 are considered. From the theological perspective, the eternal and divine identity of the Λόγος is emphasized as agent of creation and as the light that triumphs over darkness, affirming the incarnate Λόγος as the centre of Christology and of the faith of the church.
KEYWORDS: Logos (Λόγος); biblical theology; biblical interpretation; John 1:1-5; Gospel of John.
INTRODUÇÃO
Este artigo encontra-se dentro do campo da Teologia Bíblica, com ênfase na interpretação bíblica, tomando como recorte o Novo Testamento, em especial os Evangelhos e, dentro deles, o Evangelho de João. O foco recairá sobre o Prólogo joanino, mais especificamente sobre a perícope de Jo 1:1-5. A pesquisa terá como tema uma leitura de Jo 1:1-5 à luz de uma abordagem hermenêutica que considera múltiplos contextos interpretativos, histórico, literário e teológico, buscando articular esses níveis de análise de forma coesa e controlada pelo próprio texto.
A escolha de Jo 1:1-5 se justifica pelo fato de essa perícope ocupar posição de destaque no Evangelho de João e, como se acredita, desempenhar papel fundamental na compreensão da cristologia joanina. A pergunta-chave que orientará a pesquisa será: “Como ler Jo 1:1-5 à luz de uma abordagem que priorize os contextos histórico, literário e teológico, a fim de compreender melhor o significado do texto?” A hipótese é que a aplicação de uma abordagem que trabalha com múltiplos contextos interpretativos permite uma interpretação mais adequada e multifacetada do texto, proporcionando uma compreensão adequada de seu significado para a fé cristã na contemporaneidade.
A metodologia de pesquisa é qualitativa e bibliográfica. Todavia, a metodologia teológica e hermenêutica adotada seguirá uma abordagem que analisa o texto sob as três dimensões de leitura supracitadas aplicadas em Jo 1:1-5. Em primeiro lugar, será examinado o viés histórico, voltado ao “mundo por trás do texto”, buscando identificar possíveis influências do pensamento helenístico na compreensão do λόγος. Nessa etapa, o texto será lido em diálogo com a formulação do λόγος em Heráclito de Éfeso, no estoicismo e em Fílon de Alexandria. Segundo Baumann (2022, p. 29), “o interesse pela busca da história por trás do texto controla, em maior ou menor grau, a metodologia histórica e crítica para interpretação dos textos bíblicos”. Essa observação respalda a presente investigação sobre possíveis influências helenísticas na ideia de Λόγος, pois poderá demonstrar que o exame de aspectos históricos é parte legítima do esforço interpretativo.
Em segundo lugar, o texto será examinado através de um viés literário. Essa leitura privilegia a forma final do texto e sua função teológica e literária no contexto canônico das Escrituras (BAUMANN, 2022, p. 45). Serão considerados o uso de Λόγος na literatura joanina, particularmente em Jo 1; 1 Jo 1:1 e Ap 19:13, os recursos literários presentes na perícope, como paralelismo semântico, metáfora, antítese, estrutura hínica, e sua intertextualidade com textos do Antigo Testamento, especialmente em Gn 1:1-3 e Pv 8.
Em terceiro lugar, a análise adotará um viés teológico para Jo 1:1-5, que corresponderá à leitura “no encontro com o texto” (do inglês in front of the text) examinando a identidade eterna e divina do Λόγος, sua atuação como agente da criação e sua função como luz que triunfa sobre as trevas. Essa abordagem buscará oferecer uma leitura cristã bem-informada e teologicamente orientada de Jo 1:1-5 para reflexão e apropriação do texto na vida de fé.
Ao final do artigo, espera-se oferecer uma contribuição específica ao estudo de Jo 1:1-5 ao integrar, de forma coerente, os resultados das análises histórica, literária e teológica, de modo a levar leitores a apropriarem-se do texto com coerência intelectual e fidelidade teológica.
1 JOÃO 1:1-5 SOB UM VIÉS HISTÓRICO
Nesta seção, Jo 1:1-5 será analisado sob um viés histórico que busca identificar possíveis influências do mundo por trás do texto sobre esta perícope. Para isso, propõe-se verificar as possíveis influências do pensamento filosófico, especialmente de Heráclito, do estoicismo e de Fílon de Alexandria quanto ao emprego do termo λόγος (Logos), terminologia esta que ocupa destaque proeminente na interpretação de Jo 1:1-5. Assim, esta seção está dividida em três partes. A primeira falará sobre o λόγος em Heráclito de Éfeso, a segunda comentará sobre o λόγος no estoicismo e a terceira discutirá sobre o λόγος em Fílon de Alexandria.
1.1 O LOGOS EM HERÁCLITO DE ÉFESO
Segundo Kunz (2019, p. 249) “Heráclito nasceu em Éfeso, cidade da Ásia Menor, conhecida por sua cultura intelectual, em virtude dos contatos com vários outros povos”. As datas de nascimento e morte do pensador são incertas, mas situam-se aproximadamente entre 540 e 480 a.C. Heráclito foi um dos mais importantes filósofos pré-socráticos e ficou conhecido como “‘o Obscuro’, devido à dificuldade de interpretação de seu pensamento” (MARCONDES, 2010, p. 35). Sua filosofia é centrada na ideia de que a realidade é marcada por constante mudança, sendo o movimento a característica fundamental de tudo o que existe. Essa concepção foi resumida no provérbio Πάντα ῥεῖ (tudo flui) (MARCONDES, 2010, p. 35).
No entanto, sua contribuição mais duradoura à história do pensamento e importante para este artigo está na introdução da ideia de λόγος, que ele descreve como princípio universal que ordena o cosmos e sustenta a unidade na diversidade. Segundo Marcondes (2010, p. 35), no Fragmento 50 na numeração de Diels-Kranz, Heráclito afirma: “Dando ouvidos não a mim, mas ao logos, é sábio concordar que todas as coisas são uma única coisa”, e ainda destaca Marcondes (2010, p. 35), “a noção de logos desempenha papel central em seu pensamento, como princípio unificador do real e elemento básico da racionalidade do cosmo”. O λόγος, portanto, para Heráclito, é mais que linguagem, é razão, estrutura e sentido último da realidade, antecipando discussões que mais tarde seriam retomadas no contexto do pensamento helenístico.
Segundo Kirk, Raven e Schofield, com base no fragmento 227, para Heráclito, o λόγος é o princípio racional e universal que organiza e mantém a unidade do cosmos, sendo também o critério de sabedoria para a vida humana ao revelar a ordem subjacente a todas as coisas (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, 2004, p. 210-211). Ainda segundo o fragmento 227, “a sabedoria consiste em compreender o Logos, a estrutura análoga ou elemento comum da disposição das coisas” (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, 2004, p. 210). Diferente de Heráclito, João apresenta o Λόγος como a autorrevelação de Deus que será examinado mais adiante.
1.2 O LOGOS NO ESTOICISMO
Para os estoicos, o λόγος era o princípio racional pelo qual tudo existe, a essência da alma humana racional. Para eles, o universo não era fruto do acaso, mas estava estruturado segundo uma razão imanente, identificada com a própria divindade. Nesse sentido, Deus e λόγος não eram separados, mas constituíam a mesma realidade, a razão divina que dá ordem ao mundo e que se manifesta também na racionalidade humana. Segundo Ladd (2001, p. 224) “O Logos formou um dos elementos mais importantes na teologia estoica. Os estoicos usaram a ideia do Logos para prover a base para uma vida moral racional”. Brown (2022, p. 824) afirma que “Para os estoicos, o λόγος era a mente de Deus (um Deus mais panteístico que penetrou todas as coisas), guiando, controlando e dirigindo todas as coisas”.
O λόγος era compreendido como o princípio ativo que organiza a matéria, estabelecendo forma, finalidade e movimento. Cada ser humano participa desse princípio por meio da razão, de modo que, viver em conformidade com a natureza, significava viver em conformidade com o λόγος. Segundo Carson (2007, p. 114) “Os estoicos entendiam que logos era o princípio racional pelo qual tudo existe, a essência da alma humana racional. No que diz respeito a eles, não há outro deus senão o logos, e tudo que existe surgiu dos logoi seminais, sementes desse logos”. Essa concepção oferecia tanto uma explicação para a ordem do universo quanto um fundamento ético para a vida prática.
Ao contrastar a concepção estoica com Jo 1:1-5, percebe-se uma diferença fundamental. Enquanto para os estoicos o λόγος era um princípio racional impessoal, identificado com a ordem do cosmos e com a razão humana, o texto apresenta o Λόγος como uma pessoa viva e atuante. No quarto evangelho, o Λόγος estava com Deus e era Deus (Jo 1:1), sendo não apenas princípio de racionalidade, mas o próprio agente da criação e da revelação divina. Dessa forma, Jo 1:1-5 rompe com a impessoalidade filosófica, revelando o Λόγος em uma realidade pessoal que se encarna em Jesus Cristo, revelando o caráter e a vontade de Deus de modo pleno e histórico.
1.3 O LOGOS EM FÍLON DE ALEXANDRIA
Fílon de Alexandria foi um filósofo judeu helenista, nascido em Alexandria, no Egito; ele procurou conciliar a tradição judaica com a filosofia grega, especialmente o platonismo e o estoicismo. “Fílon de Alexandria, também conhecido como Fílon, o Judeu (25 a.C.-50 d.C.), um judeu helenizado que viveu em Alexandria nesse período” (MARCONDES, 2010, p. 107).
Para Fílon, o λόγος parece ser uma realidade impessoal, quase uma força intermediária. Porém, segundo Hendriksen (2004, p. 99) “Ninguém consegue concluir qual era o entendimento de Filo a respeito do Logos. Ele usa o termo mais de 1.300 vezes em seus escritos, embora o sentido nunca seja definido.” Apesar desta variedade de sentidos (polissemia) do λόγος para Fílon, de modo geral, parece que o λόγος não poderia ser uma pessoa, mas uma entidade intermediária hipostática e impessoal. Em contraste, o Λόγος em Jo 1:1-5 vai muito além de Fílon, que, segundo Hendriksen (2004, p. 100) “Ele o descreve como um atributo divino, e, também como uma ponte entre Deus e o mundo, sem ser idêntico com nenhum dos dois lados, mas compartilhando da natureza de ambos. Filo usava o termo alegoricamente, o que torna muito difícil apreendermos seu significado”. Não obstante, Fílon toma o conceito grego de λόγος e o “judaíza” inserindo-o na cosmogonia mosaica e isso pode ter preparado terreno para a apropriação do λόγος no sentido cristão.
No quarto evangelho, o Λόγος é apresentado como uma pessoa divina que se encarna, algo totalmente ausente no pensamento filoniano. Além disso, enquanto o Evangelho de João utiliza símbolos, ele não recorre à alegoria da mesma forma filosófica e sistemática que Fílon empregava. Brown considera que não parece adequado entender Fílon como fonte direta para a teologia joanina estampada em Jo 1:1-5. Brown sugere que: “Além do mais, tanto Filo como João recorreram ao AT, e no conceito do logos ambos recorreram à Literatura Sapiencial do AT. Portanto, não surpreende que às vezes seu pensamento se desenvolva ao longo de linhas paralelas” (BROWN, 2022, p. 52). Mesmo se fosse considerado que o Evangelho de João e Fílon beberam da mesma fonte, o Quarto Evangelho teria ido muito além revelando o Λόγος como o Filho de Deus encarnado e não apenas uma ideia filosófica abstrata. Como afirma Braun “se Fílon nunca existisse, o Quarto Evangelho mui provavelmente não teria sido nada diferente do que é”. (BRAUN, 1970, p. 298 citado por BROWN, 2022, p. 52)
Esta seção, portanto, demonstra que o conceito de Λόγος em Jo 1:1-5, embora ecoe influências helenísticas como as de Heráclito, do estoicismo e de Fílon de Alexandria, transcende essas perspectivas filosóficas ao apresentar o Λόγος como uma pessoa divina, o Filho de Deus encarnado. Enquanto Heráclito o entendia como um princípio racional que ordena o cosmos e os estoicos o viam como a razão divina imanente, Jo 1:1-5 o redefine como a revelação viva de Deus. Fílon, por outro lado, concebia o λόγος como uma força intermediária, sem personalidade distinta, tornando-a distinta da concepção joanina, mas fazendo uma ponte entre a cultura helenística e a judaica.
2 JOÃO 1:1-5 SOB UM VIÉS LITERÁRIO
O objetivo desta seção é apresentar uma leitura de João 1:1-5 sob um viés literário. Conforme Baumann (2022, p. 45) “uma abordagem literária […] preocupa-se […] com o potencial semântico das palavras e seu efeito literário na experiência de leitores”. Essa leitura privilegia a forma final do texto e sua função literário-teológica no contexto canônico das Escrituras. Portanto, sob este ponto de vista, esta seção tratará das ocorrências da expressão λόγος na literatura joanina, dos recursos literários empregados no texto e da intertextualidade da perícope com o AT.
2.1 O USO DO LOGOS NA LITERATURA JOANINA E SUA RELAÇÃO COM JOÃO 1:1-5
Em Jo 1:1-5, o Λόγος ocupa um lugar central e único. Não obstante, o termo também aparece em outras três ocasiões e todas elas dentro da literatura joanina. Além de Jo 1:1, o termo também aparece em Jo 1:14, 1 Jo 1:1 e Ap 19:13. Porém, antes de aprofundar o significado literário de Λόγος e suas implicações para a leitura de Jo 1:1-5 e sua relação com Jo 1:14, importa revisar, ainda que brevemente, os demais textos em que Λόγος aparece.
Em primeiro lugar, 1 Jo 1:1, que tem sido objeto de interpretações distintas, a exemplo de Stott (2005, p. 19), que sustenta que há uma diferença substancial de enfoque: “no prólogo do quarto evangelho, o Logos é pessoal, referindo-se ao Filho unigênito, ao passo que no prefácio da primeira epístola, o logos da vida é impessoal e se refere ao evangelho que traz vida”. A leitura de Stott privilegia o caráter proclamativo do texto, em contraste com a cristologia ontológica do Evangelho, interpretando o Λόγος de 1 João mais como a mensagem da vida eterna do que como a própria pessoa de Cristo como Λόγος encarnado.
Por outro lado, Lopes (2005, p. 29) adota uma perspectiva mais cristocêntrica em sua leitura de 1 Jo 1:1 ao afirmar que “João também se refere a Jesus como o Verbo da vida (1:1). ‘Verbo’ aqui é a tradução empregada para a palavra grega logos, que também significa ‘palavra’”. Ainda, para Lopes, o apóstolo utilizou o termo por ser conhecido dos seus ouvintes, que eram gregos. Consequentemente, Λόγος permaneceria uma designação pessoal de Cristo, ainda que adaptada à cultura helenística.
Em segundo lugar, Ap 19:13 retoma o termo Λόγος, mas agora em contexto escatológico e de juízo. Osborne (2014, p. 5) observa que embora o enfoque seja distinto entre a revelação da vida versus manifestação de juízo, a continuidade teológica permanece. Osborne (2014, p. 5) diz: “Certamente há uma nítida diferença entre Jesus como o Verbo, em Jo 1:1,2 sendo aquele que revela a Deus, e em Apocalipse 19:13 onde ‘seu nome é o Verbo de Deus’ conota a proclamação do juízo, mas, em ambos os lugares, Λόγος vincula Jesus ao Pai e dá destaque à unidade entre eles”.
Em terceiro lugar, como o λόγος em 1 Jo 1:1 e Ap 19:13 auxiliam na compreensão de Jo 1:1-5 e de Jo 1:14? Kistemaker (2004, p. 657) contrasta Jo 1:1 com 1 Jo 1:1: “A imagem não é a do Cordeiro cujo sangue foi derramado na cruz do Calvário para a remissão do pecado. Aqui vemos o Juiz de toda a terra, o Capitão de suas forças armadas, e o Rei dos reis e Senhor dos senhores.” Ainda, enquanto em Ap 19:13 Jesus Cristo é o Λόγος do juízo e da glória, em 1 Jo 1:1 é o Λόγος da Vida, em Jo 1:1-5 ele é o Filho de Deus encarnado. Adicionalmente, em Jo 1:14 declara que o Λόγος se fez carne e “armou seu tabernáculo” (ἐσκήνωσεν ἐν ἡμῖν) entre nós. Carson (2007, p. 127) comenta o sentido de ἐσκήνωσεν em Jo 1:14 da seguinte forma: “A Palavra fez sua habitação entre nós. Traduzindo mais literalmente, o verbo grego skênoô significa que a Palavra armou seu tabernáculo, ou morou em sua tenda, entre nós.” O que Carson não comenta, todavia, é que a utilização de ἐσκήνωσεν soa como um hebraísmo com eco na figura do tabernáculo no Pentateuco.
Cullmann (2002, p. 329) vai além de Carson, se referindo ao Λόγος de Jo 1:1-5 mais interpretativamente sugerindo que assim como em Gênesis, Deus criou os céus e a terra com a coparticipação do Λόγος, agora vem ao mundo não apenas para habitar entre nós, mas para realizar um novo Gênesis:
No AT está dito: ‘No princípio criou Deus o céu e a terra’; e no Evangelho de João: ‘No princípio era o Verbo, o Logos… todas as coisas foram feitas por ele’. Um novo Gênesis é o que aqui se nos apresenta, porém, à luz do mediador da revelação” (CULLMANN, 2002, p. 329).
A partir dessa perspectiva, a noção de nova criação em Cristo revela-se como a consumação do propósito divino de restaurar todas as coisas. O Λόγος não apenas participa do ato inicial da criação, mas também inicia uma nova criação espiritual, na qual o ser humano é renovado interiormente e reconciliado com Deus. Segundo Cullmann (2002, p. 195), “o cumprimento da promessa […] significa exatamente uma nova criação, o fato de que Deus nos renovou por meio do perdão dos pecados e nos plasmou de novo”, indicando que a obra redentora de Cristo é o ponto culminante do plano criador. Assim, a encarnação do Λόγος não é apenas uma manifestação divina na história, mas o início de uma nova realidade onde a humanidade é recriada, restaurada e santificada na comunhão com o Criador.
Em suma, embora a personalização joanina do Λόγος, em contraste com suas raízes helenísticas em Heráclito (princípio racional cósmico), nos Estoicos (razão imanente e λόγος σπερματικός) e em Fílon (intermediário impessoal entre o Deus transcendente e o mundo) revele possíveis influências do mundo por trás do texto, a literatura joanina ressignifica esse conceito filosófico, utilizando-o simbolicamente como eixo narrativo unificador. Assim, em Jo 1:1-5 ele é a pessoa eterna, criadora; em Jo 1:14, a encarnação, tabernáculo; em 1Jo 1:1, o testemunhado, proclamado; e em Ap 19:13, o juiz, rei, espada da boca. O que une os quatro usos é a identidade da mesma Pessoa divina (o Verbo/ λόγος) manifestada em quatro funções teológicas: cosmologia, soteriologia, kerygma e escatologia.
2.2 RECURSOS LITERÁRIOS: PARALELISMO SEMÂNTICO, METÁFORA,
ANTÍTESE E ESTRUTURA HÍNICA
Argumenta-se nesta seção que Jo 1:1-5 apresenta uma grande riqueza literária, na qual o autor utiliza recursos poéticos para comunicar ideias teológicas mais complexas. Essa seção analisa quatro recursos empregados em Jo 1:1-5: o paralelismo sinonímico, a metáfora da luz e vida, o recurso da antítese e suas características hínicas.
Em primeiro lugar, Jo 1:1-5 apresenta um paralelismo sinonímico, que, segundo Brown (2021, p. 150) aparece “onde a segunda linha reitera a ideia da primeira”, neste caso, reforçando a existência eterna do Λόγος e ao mesmo tempo climático ou escalável, que é uma vertente do paralelismo sintético onde a segunda frase repete um conceito da primeira, porém com uma extensão de seu sentido, dando a ela uma espécie de clímax.
O v.1 pode ser analisado em três cláusulas principais: a primeira, “Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος” Jo 1:1a), estabelece a existência prévia do Λόγος, situando-o no princípio da criação. A segunda cláusula, “καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν” (Jo 1:1b), repete a existência do Λόγος, mas acrescenta a dimensão relacional, enfatizando sua proximidade e comunhão com Deus e a terceira cláusula, “καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος” (Jo 1:1c), revela a essência, quando retoma o núcleo semântico da primeira e o expande teologicamente, declarando explicitamente a divindade do Λόγος que será mais bem tratada posteriormente. Em resumo, a primeira cláusula fala da existência, a segunda da relação e a terceira alcança o clímax quando revela a essência do Λόγος.
A implicação básica desta estruturação do v.1 é que entrelaça o caráter divino junto com o do Λόγος. Hendriksen (2004, p. 901) ressalta esta dimensão teológica do v.1: “O propósito do evangelista fora sempre este: mostrar que Jesus é realmente Deus (ou, caso se prefira, o Filho de Deus; portanto, da exata essência de Deus).” Jo 1:1, portanto, utiliza-se de um paralelismo semântico progressivo, em que cada cláusula repete e amplia a anterior, tanto preparando o leitor para os versículos subsequentes nos quais são desenvolvidas as temáticas da vida e da luz em relação à humanidade, como já de início oferecendo a temática teológica que articula o Prólogo e o Evangelho: Jesus possui identidade divina.
Em segundo lugar, o texto emprega a metáfora da luz e da vida, que expressa de forma simbólica a revelação divina em Cristo, tema este que será trabalhado posteriormente em outras narrativas do Evangelho de João. Em Jo 1:1-5, expressões como “ὁ Λόγος”, “ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦν” e “καὶ ἡ ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων” utilizam imagens poéticas para comunicar verdades espirituais profundas. Assim, o texto recorre à linguagem metafórica para tornar perceptível o invisível: o Λόγος é aquele por meio de quem a vida divina se manifesta e ilumina a humanidade, conduzindo o leitor a compreender a encarnação não apenas como um evento histórico, mas fundamentalmente como a irrupção da luz eterna no mundo humano.
Em terceiro lugar, Jo 1:1-5 trabalha com o recurso da antítese. A antítese é a figura de linguagem que contrasta ideias opostas para destacar diferenças ou reforçar a mensagem e aparece de modo explícito no texto no v.5: “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”, estabelecendo contraste entre luz e trevas, bem e mal, enfatizando a vitória do Λόγος. De fato, o Evangelho de João é caracterizado pelo uso deste tipo de linguagem determinada pela antítese (BULTMANN, 2008, p. 228).
Nesta antítese, Jo 1:1-5 estaria mostrando, através de opostos, o contraste entre a missão do Λόγος que era trazer luz à humanidade caída e as trevas das quais a humanidade estava imersa. Bruce (1987, p. 39) escreve que “Luz e trevas devem ser vistas mais em termos éticos do que metafísicos; “luz” é sinônimo de bondade e verdade, e “trevas” é sinônimo de maldade e falsidade”. Hendriksen (2004, p. 103) complementa afirmando que “Desde a queda, que está implícita aqui na última parte do versículo 4, essa luz foi proclamada aos seres humanos. A humanidade é caracterizada por trevas, maldade e ódio, que são manifestações opostas à luz”, evidenciando aqui o significado da luz que o Λόγος trazia ao mundo.
A figura de “trevas” (σκοτία) é interpretada por Hendriksen (2004, p. 105) da seguinte forma: “As trevas, a que se refere o evangelista, têm um sentido concreto. Elas se referem à humanidade caída, coberta pela descrença e pelo pecado”. Carson (2007, p. 120), por sua vez, reforça esta ideia comentando que “As ‘trevas’ em João não são somente ausência de luz, mas um mal concreto”. Portanto, a antítese de φῶς e de σκοτία em Jo 1:1-5 é significativa para o leitor compreender verdades espirituais da luta entre o bem e o mal, o céu e a terra, o Λόγος contra o κόσμος caído pelo pecado e cego pela escuridão. Assim, esse dualismo não apenas realça a tensão literária e poética do texto, mas também sublinha a mensagem teológica central em que o Λόγος é a fonte de vida e luz, enquanto a rejeição do Λόγος resulta em trevas e ausência de vida. Dessa forma, o dualismo joanino funciona como um recurso literário em uma narrativa simbólica e profundamente reflexiva logo no Prólogo do Quarto Evangelho, tornando-se uma das ênfases teológicas da literatura joanina como um todo.
Em quarto lugar, Jo 1:1-5 evidencia características hínicas. A invocação inicial do Λόγος, seguida da exposição de sua função criadora, dramatização simbólica da vida e da luz, e o clímax na vitória da luz sobre as trevas no v.5 confere ritmo, musicalidade e profundidade poética ao texto. Bruce (1987, p. 33) observa que: “o prólogo foi escrito em prosa rítmica, dificilmente como poesia, como alguns pensam.” Essa observação, porém, não elimina sua natureza poética; antes, revela que o texto emprega uma prosa ritmada e solene, próxima do estilo hínico, em que ritmo, paralelismo e repetição cumprem uma função teológica e litúrgica. Assim, o texto combina forma de prosa e função de hino, unindo teologia e arte literária em perfeita harmonia. Em outras palavras, à medida que o texto entretém o leitor, ele o ensina sobre teologia, antecipando alguns dos temas centrais do Evangelho e da literatura joanina.
2.3 INTERTEXTUALIDADE DE JOÃO 1:1-5 COM O ANTIGO TESTAMENTO
Ao ler Jo 1:1, leitores atentos conseguem perceber uma intertextualidade com Gn 1:1 (CARSON, 2007, p. 113; BROWN, 2022, p. 171). A primeira palavra do quarto evangelho, Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, é exatamente a mesma expressão inicial do livro de Gênesis na versão grega da Septuaginta (LXX) que traduziu בְּרֵאשִׁ֖ית por Ἐν ἀρχῇ.
Sobre isso, Mateos e Barreto reforçam a ideia de que Jo 1:1 teria usado propositalmente a mesma expressão da LXX de Gn 1:1 a fim de mostrar aos seus leitores que o Λόγος estava com Deus no ato da criação e que sem ele nada do que se fez teria sido feito. “A sentença en archê ên pode significar que o logos coexistia com o princípio narrado em Gênesis 1:1 ou então que João corrige a concepção do Gênesis indicando qual foi o verdadeiro princípio. Em todo caso, a palavra/projeto precederia à obra criadora.” (MATEOS; BARRETO, 1989, p. 30).
Esta conexão de Jo 1:1 com Gn 1:1 tem o efeito de ajudar o leitor a compreender não apenas a eternidade do Λόγος, mas, também, sua ação criadora e sua coparticipação no ato e na preservação de toda criação. Mais profundamente, a conexão cria um elo entre a divindade criadora do AT com a divindade revelada em Jesus Cristo no NT. Em perspectiva, Jesus Cristo não está sendo retratado em Jo 1:1-5 e no restante do Evangelho como um ser criado por Deus, mas como a palavra divina que tanto recebe ênfase em Gn 1. O verbo εἶπεν de Gn 1:3 LXX deriva-se diretamente da raiz λέγω, implicando que seu cognato substantival seja claramente o Λόγος. Ou seja, Gn 1:1 LXX retrata Deus com ações performáticas através da sua “palavra”. Jo 1:1-5 toma tal imagem e relaciona tal “palavra” (Λόγος) diretamente a Jesus Cristo.
Além de remeter o leitor a Gênesis 1:1-3, ecoando a narrativa da criação, a expressão “πάντα δι’ αὐτοῦ ἐγένετο” em Jo 1:3 estabelece uma relação intertextual com a literatura sapiencial da Escritura Cristã, especialmente com Provérbios 8, onde a חָכְמָה é apresentada como pré-existente e cooperadora na obra criadora.
Assim como a חָכְמָה estava com Deus no princípio e na criação, Jo 1:1-5 descreve o Λόγος como aquele por meio de quem todas as coisas vieram a existir. Nesta linha, Carson (2007, p. 115) observa que “a ‘Sabedoria’ de Deus é altamente personificada em algumas passagens (especialmente Pv 8:22-36.), tornando-se o agente da criação e um maravilhoso dom”, o que demonstra uma continuidade temática entre o conceito de חָכְמָה interligado com a natureza eterna de Deus e o uso de Λόγος no prólogo joanino. No entanto, Carson (2007, p. 115) ressalta que isso não é apenas retomar uma tradição judaica, mas reinterpretar o AT cristologicamente: “o evangelista atribui ao Logos alguns dos atributos da Sabedoria”, mas vai além dela ao identificar essa Palavra com o próprio Deus. Desse modo, o Λόγος não é apenas o princípio ordenador da criação, mas a expressão pessoal e encarnada da Sabedoria divina, a autoexpressão de Deus em ação criadora, reveladora e redentora. A intertextualidade com o AT, especialmente Gn 1:1-3 e Pv 8, demonstra que Jo 1:1-5 reposiciona o Λόγος como copartícipe criador, personificação da Sabedoria divina que ordena o cosmos e oferece vida plena, reinterpretando cristologicamente as Escrituras Judaicas (tomadas como Escrituras Cristãs no NT) para afirmar a continuidade e a novidade da revelação em Cristo.
Esta análise literária de Jo 1:1-5 revela o Λόγος como eixo central da perícope, unificando o corpus joanino ao significar não apenas o Verbo eterno e relacional com Deus (Jo 1:1-5), mas também o Verbo da vida proclamado (1Jo 1:1), o encarnado que “tabernacula entre nós” (Jo 1:14) e o Juiz escatológico (Ap 19:13), culminando numa nova criação que ecoa Gênesis. Assim, essa leitura literária não esgota o potencial semântico da perícope, mas abre amplos horizontes para a próxima seção, onde serão explorados aspectos teológicos profundos de Jo 1:1-5.
3 JOÃO 1:1-5 SOB O VIÉS TEOLÓGICO
Nesta seção, considera-se o efeito teológico-existencial do texto no leitor cristão, reconhecendo que Jo 1:1-5 continua a comunicar verdades duradouras para diferentes comunidades e contextos além do seu contexto de origem. Esta seção, portanto, examinará a natureza divina do Λόγος a partir do texto em busca do seu significado duradouro.
3.1 O LOGOS EM SUA IDENTIDADE ETERNA E DIVINA
A terceira cláusula de Jo 1:1 traz a expressão “καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος”, que traduzida quer dizer literalmente “e o Logos era Deus”. Esta expressão é uma das mais importantes no tocante à compreensão da divindade de Jesus. A discussão gramatical acerca da ausência do artigo definido antes de θεός é considerada um ponto de discussão, não apenas sob um viés gramatical, mas também para a teologia e a cristologia joanina no primeiro versículo do quarto evangelho.
A estrutura da terceira frase do versículo 1, theos en ho logos, requer a tradução o Verbo era Deus. Já que logos é precedido do artigo, ele é identificado como sujeito. O fato de theos ser a primeira palavra depois da conjunção kai (e) mostra que a ênfase principal da frase está nele. Se tanto theos como logos fossem precedidos de artigo, o significado seria que o Verbo é completamente idêntico a Deus, o que é impossível se o Verbo também está com Deus (BRUCE, 1987, p.36).
A análise de Bruce (1987, p. 36) sobre καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος oferece uma leitura precisa da relação entre θεός e o Λόγος. Bruce explica que a ausência do artigo definido antes de θεός tem função gramatical e teológica, pois impede a identificação total do Λόγος com o Pai, preservando, contudo, sua plena divindade. O artigo em ὁ λόγος indica o sujeito da frase, enquanto a posição de θεός antes do verbo realça sua natureza divina. Assim, Jo 1:1 apresenta o Λόγος como participante da mesma essência de Deus, sem confundir as pessoas da Trindade, e a formulação καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος expressa, com precisão sintática e teológica, que ele é verdadeiramente Deus, ainda que distinto do Pai (cf. também Cl 2:9).
Para aprofundar ainda mais a questão em torno de καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος, Brown (2021, p. 173) destaca a complexidade gramatical e teológica do texto observando que “não há artigo antes de theos como houve no v.1b”, o que gera debates sobre a relação entre o Λόγος e Deus. Brown (2021, p. 173) explica a ausência do artigo com base na regra segundo a qual substantivos predicativos geralmente aparecem ἀνάρθρος, isto é, sem artigo, indicando uma qualidade e não uma identidade absoluta.
Contudo, Brown (2021, p. 173) argumenta que, embora seja provável que θεὸς funcione como predicado, tal regra não se aplica necessariamente quando o autor pretende fazer uma afirmação de identidade. Assim, Brown conclui que, mesmo sem o artigo definido, o texto não pretendeu enfraquecer a declaração sobre a divindade do Λόγος, mas, ao contrário, reforçar que ele participa plenamente da essência divina. A forma ἀνάρθρα de θεός não o torna menor que Deus, mas expressa a intenção joanina de afirmar que o Λόγος é verdadeiramente Deus, ainda que distinto do Pai.
Brown observa que, no Evangelho de João, há padrões claros de afirmações de identidade plena, como nas declarações de Jesus em Jo 11:25 e 14:6, onde Ele diz ser “a ressurreição e a vida” e “o caminho, a verdade e a vida”. Assim, mesmo sem o artigo em Jo 1:1c, o contexto indica que o Λόγος é Deus tal como em Jo 11:25 e 14:6, em que a mesma estrutura gramatical é usada para revelar a essência de Jesus, e não meramente uma semelhança com Deus. Essa leitura reforça que a ausência do artigo em θεός não atenua sua força teológica, mas contribui para expressar a plena identidade do Λόγος com Deus, em harmonia com as declarações de identidade absoluta presentes em Jo 11:25 e 14:6.
3.2 O LOGOS COMO AGENTE DA CRIAÇÃO
Jo 1:3 reforça a concepção do Λόγος como agente ativo da criação, ao afirmar “πάντα δι’ αὐτοῦ ἐγένετο, καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν. ὃ γέγονεν”. Essa frase declara de maneira enfática que todas as coisas vieram à existência por meio do Λόγος, e nada do que foi criado passou a existir sem ele. Ela está alinhada com a pré-existência e participação na criação que Jo 1:1-2 testemunha sobre o Λόγος. Assim, o Λόγος é retratado como mediador da criação, plenamente integrado a θεὸς e sem o qual o cosmos não teria existido.
Segundo Brown (2021, p. 173), “desde o 2º século em diante, isto [v.3] foi tomado como uma referência à criação.” Tal observação mostra que, desde os primórdios da reflexão cristã, os cristãos têm interpretado o Λόγος como o mediador pelo qual Deus trouxe à existência todas as coisas (cf. também Hb 1:2).
Sobre a tradução e o sentido de πάντα δι’ αὐτοῦ ἐγένετο, καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν. ὃ γέγονεν, Carson (2007, p. 118) observa que:
Então o versículo 3 simplesmente insiste, positiva e negativamente, que a Palavra era o agente de Deus na criação de tudo que existe. Positivamente, todas as coisas foram feitas por intermédio dele; negativamente, sem ele, nada do que existe teria sido feito. A mudança no tempo verbal de ‘foram feitas para teria sido feito’ é, portanto, a mudança do ato de criação para o estado de criação. Mesmo assim, a última é uma forma estranha de expressão. O grego pode ser mais bem traduzido como: ‘Todas as coisas foram feitas por ele, e o que foi feito (tomando ὃ γέγονεν como o sujeito da segunda oração), de forma alguma, foi (tomando οὐδὲ ἕν adverbialmente) feito sem ele’ (CARSON, 2007, p.118).
A análise de Carson evidencia que Jo 1:3 é cuidadosamente trabalhado ao empregar a estrutura verbal para indicar tanto o ato criador inicial quanto a continuidade da existência de tudo o que foi feito por meio do Λόγος. Carson demonstra que o texto constrói a frase de modo intencionalmente duplo, vinculando positivo e negativo para excluir qualquer possibilidade de existência independente do Λόγος. Ao destacar a mudança verbal e a disposição sintática do texto grego, Carson mostra que João não apenas afirma a participação do Λόγος no ato criador, mas também sua ação permanente como sustentador da criação, indicando que nada possui ser ou subsistência fora dele.
Ao destacar Λόγος como mediador da criação, Cullmann (2002, p. 18) comenta que essa realidade não se restringe a Jo 1:3, mas percorre com coerência o NT. Ele evidencia que o Λόγος não atua apenas no ato inicial da criação, mas é também a tudo que posteriormente veio a existir comentando que
Cristo, mediador da Criação: este pensamento não é expresso só nesta antiga fórmula, pois podemos segui-lo por todo o Novo Testamento (cf. João 1.3; Cl 1.16). Encontra sua expressão mais vigorosa na Epístola aos Hebreus (1.10), onde se atribui positivamente a Cristo a ‘fundação da terra’, e onde os céus são designados como ‘a obra de Suas mãos’ (CULLMANN, 2002, p.18)
O Evangelho de João expressa essa verdade com clareza, apresentando o Λόγος eterno que estava com Deus e era Deus como o instrumento divino por meio do qual tudo veio e ainda vem à existência. Isso sugere que Jo 1:3 não apenas revela a participação do Λόγος na criação, mas o identifica como o agente divino supremo, em quem o universo encontra seu princípio e por quem é sustentado.
3.3 O LOGOS COMO LUZ QUE TRIUNFA SOBRE AS TREVAS
Tendo estabelecido o Λόγος como o mediador indispensável da criação, por meio do qual todas as coisas vieram à existência e são sustentadas (Jo 1:3), o prólogo joanino avança para revelar sua função contínua na ordem redentora. Em Jo 1:5, o Λόγος é apresentado como a luz invencível que resplandece nas trevas, estabelecendo uma ponte teológica entre a criação original e a nova criação, na qual a escuridão espiritual é definitivamente dissipada.
O versículo de Jo 1:5 estabelece uma profunda conexão teológica entre a criação e uma nova criação realizada pelo Λόγος. Assim como havia trevas sobre a face do abismo וְחֹ֖שֶׁךְ עַל־פְּנֵ֣י תְה֑וֹם (Gn 1:2) até que Deus declarou: וַיֹּ֥אמֶר אֱלֹהִ֖ים יְהִ֣י א֑וֹר וַֽיְהִי־אֽוֹר (Gn 1:3), também agora a luz do Λόγος dissipa as trevas pecaminosas da humanidade caída. Bruce (1987, p. 39) observa que “da mesma forma, a nova criação (em que o Verbo é o agente de Deus com tanta eficiência como na primeira) abrange a expulsão da escuridão espiritual pela luz que brilha no mundo.”
Nessa perspectiva, a presença do Λόγος não é um evento pontual, mas a continuidade da ação criadora de Deus, cuja luz jamais parou de brilhar. Hendriksen (2004, p. 104) destaca que “a luz não estava somente brilhando durante a antiga dispensação; ela ainda está brilhando nos dias atuais”, enfatizando sua constância e vitória sobre as trevas, símbolo da ausência de Deus. Carson (2007, p. 120) complementa ao afirmar que “as ‘trevas’ em João não são somente ausência de luz, mas um mal concreto; a luz não é só revelação ligada à criação, mas à salvação.”
O verbo grego κατέλαβεν, traduzido em Jo 1:5 como “não a compreenderam” ou “não prevaleceram contra ela”, carrega uma ambiguidade semântica que enriquece o sentido teológico do texto. O termo pode expressar tanto a incapacidade das trevas de entender a luz quanto sua impossibilidade de vencê-la. Bruce (1987, p. 39) observa que o contexto favorece a ideia de resistência frustrada daí “as trevas não podem prevalecer contra ela.”
Já Carson (2007, p. 120) sugere que Jo 1:5, ao empregar esse verbo, intencionalmente preserva um sentido duplo: cognitivo, ao indicar que as trevas não compreenderam a luz; e combativo, ao expressar que não puderam vencê-la. Ainda Carson: “alternativamente, mesmo se katelaben significa algo como ‘não a derrotaram’, é bastante possível que João, escritor sutil que é, queira que seus leitores vejam na Palavra tanto a luz da criação como a luz da redenção que a Palavra traz em sua encarnação.” Assim, o uso de κατέλαβεν reforça a natureza triunfante do Λόγος, sua luz não apenas revela, mas também conquista, permanecendo invencível diante de toda oposição espiritual e iluminando para a salvação os que nele creem.
Para obter outras perspectivas sobre o significado canônico e teológico de Jo 1:5, o próprio Quarto Evangelho oferece opções. Entre elas está a de Jo 8:12, quando Jesus, isto é, o Λόγος declara: “ἐγώ εἰμι τὸ φῶς τοῦ κόσμου” (Jo 8:12). Essa autodefinição conecta-se diretamente ao prólogo joanino, especialmente a Jo 1:1-5, onde a eternidade e a divindade do Λόγος são apresentadas. Chama a atenção também que, logo em seguida do v.5, João, o Batista, é introduzido na narrativa como aquele que veio dar testemunho da luz (Jo 1:6-8). O Prólogo, portanto, estrutura sua teologia em torno da antítese fundamental entre luz e trevas, símbolo do confronto entre a revelação divina e a condição do mundo caído, mergulhado na ignorância e separado da vida de Deus.
Ladd oferece uma síntese dessa tensão teológica ao afirmar: “Um dos temas que transparece nas primeiras palavras do Evangelho é o conflito entre a luz e as trevas. ‘A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela’ (1:5). O mundo é o reino das trevas, mas Deus é luz (1Jo 1:5), e Jesus veio para trazer a luz para dentro das trevas (3:19; 12:46; 8:12). Esta é a única fonte da verdadeira luz; todo homem que acha a luz deve encontrá-la em Cristo” (LADD, 2001, p. 202). A leitura de Ladd indica que o conceito joanino de luz ultrapassa o campo metafórico, trata-se de uma realidade teológica, a autorrevelação de Deus em oposição à rebelião e à cegueira espiritual do ser humano.
Portanto, Jo 1:5 cumpre uma função estrutural e teológica decisiva no Prólogo, ao articular os temas da criação e da salvação por meio da metáfora da luz. A oposição entre luz e trevas expressa não apenas um contraste simbólico, mas uma afirmação teológica da eficácia e da superioridade do Λόγος na revelação e na redenção. Assim, o versículo estabelece que a atuação do Λόγος é contínua e eficaz, e que sua obra não é frustrada pela incompreensão nem pela oposição do mundo, constituindo um eixo central da teologia joanina.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo procurou responder à pergunta: “Como ler Jo 1:1-5 à luz de uma abordagem que prioriza os contextos histórico, literário e teológico, a fim de compreender melhor o significado do texto?” Assim, essa investigação buscou demonstrar como cada viés interpretativo poderia contribuir para uma leitura mais precisa do Prólogo joanino, em especial de sua primeira perícope a fim de refletir sobre este texto na atualidade.
A hipótese inicial foi confirmada, pois o exame conjunto dos contextos histórico, literário e teológico permitiu uma leitura mais adequada e abrangente de Jo 1:1-5. Essa abordagem evidenciou a riqueza e a complexidade do texto, mostrando que o Λόγos joanino dialoga com tradições helenísticas e judaicas sem delas depender, é cuidadosamente construído em sua forma literária final e afirma, de modo claro, sua identidade divina e sua atuação criadora e redentora, atendendo assim aos objetivos propostos pelo estudo.
Em primeiro lugar, a análise histórica examinou o chamado “mundo por trás do texto” e considerou possíveis influências que circundavam o emprego do λόγος em Jo 1:1-5 considerando o ambiente helenístico. Assim, ao examinar a ideia de λόγος em Heráclito, no estoicismo e em Fílon de Alexandria, tornou-se evidente que essas tradições helenísticas, embora ofereçam paralelos terminológicos e certas aproximações conceituais, permanecem limitadas a noções impessoais.
Heráclito compreendia o λόγος como o princípio que organiza o cosmos em meio ao fluxo constante; os estoicos o concebiam como a razão divina imanente que permeia todas as coisas; e Fílon o tratava como uma entidade intermediária, muitas vezes alegórica e sem personalidade definida. Em contraste, Jo 1:1-5 redefine e transcende essas perspectivas ao apresentar o Λόγος como uma pessoa divina, agente da criação e da revelação, que se encarna na história. Jo 1:1-5 não depende das filosofias helenísticas, mas, ao dialogar com elas, as supera ao afirmar a singularidade do Λόγος como o Filho de Deus encarnado.
Em segundo lugar, a análise literária examinou o texto em sua forma final e mostrou como sua construção literária interna contribuiu para compreender o Λόγος em seu contexto canônico cristão. A investigação mostrou que o uso de λόγος na literatura joanina em Jo 1:1-5, Jo 1:14, 1 Jo 1:1 e Ap 19:13 forma um conjunto coerente que apresenta o Λόγος de modo pessoal como criador, encarnado, proclamado e juiz.
Também foram analisados os principais recursos literários do texto, como o paralelismo de Jo 1:1, que organiza a apresentação do Λόγος; as metáforas de vida e luz, que explicam sua ação vivificadora e contínua; e a antítese entre luz e trevas, que destaca o contraste entre a revelação e a resistência humana. A seção também mostrou como as características hínicas dão ritmo e destaque ao texto.
Além disso, a intertextualidade com Gn 1:1-3 e Pv 8 revelou que Jo 1:1-5 retoma e ressignifica tradições criacionais e sapienciais, identificando o Λόγος como a Sabedoria eterna e pessoal de Deus, agente da criação e da nova criação. Jo 1:1-5 em sua forma final abre horizontes e reforça a mensagem teológica do texto em seu contexto canônico. Jo 1:1-5 não apenas aprofunda o significado dos termos, imagens e figuras de linguagem, mas também reforça o papel central do Λόγος na revelação divina, onde Deus comunica sua identidade interligada com o Verbo que se fez carne.
Em terceiro lugar, a análise teológica de João 1:1-5 mostrou maneiras pelas quais Jo 1:1-5 pode nutrir a teologia cristã e a vida de fé de leitores da atualidade. Verificou-se que o texto afirma claramente a natureza divina do Λόγος ao declarar que “o Λόγος era Deus”, preservando ao mesmo tempo sua distinção com o Pai. O estudo também evidenciou que o Λόγος é o agente por meio do qual todas as coisas foram criadas e continuam existindo, confirmando sua participação ativa tanto na criação original quanto na sustentação contínua do cosmos. Como o texto apresenta o Λόγος como a luz que vence as trevas, ele une os temas da criação e redenção e revela que através de Jesus Cristo Deus realiza sua ação salvadora no mundo. João 1:1-5 apresenta o Λόγος como plenamente divino, criador e redentor, e que essa verdade é de significado duradouro para a fé cristã ao revelar quem Jesus é, e o que ele continua fazendo na história.
Como perspectivas para pesquisas futuras, o presente estudo identificou algumas lacunas que merecem investigação mais detida. Em primeiro lugar, seria proveitoso explorar com maior profundidade a relação intratextual entre Jo 1:1-5 e o restante do Prólogo (Jo 1.6-18) (o que não foi possível no presente artigo por questões de espaço e propósito), bem como sua articulação orgânica com os grandes temas que perpassam o Quarto Evangelho, especialmente o testemunho (μαρτυρία), a fé (πίστις) e a glória (δόξα). Além disso, mostrou-se promissora uma análise comparativa mais ampla entre a perspectiva joanina do Λόγος e outras concepções do período do Segundo Templo e do helenismo tardio, de modo a delimitar com maior precisão os pontos de contato e as rupturas deliberadas operadas na literatura joanina com o mundo que lhe deu origem. Finalmente, um estudo subsequente também poderia examinar a noção de Λόγos na recepção patrística inicial (e.g. Justino Mártir, Irineu, Tertuliano, Orígenes e Atanásio), contribuindo assim para uma compreensão mais ampla do impacto duradouro de Jo 1:1-5 na formulação da doutrina trinitária e cristológica do cristianismo.
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