DIVÓRCIO E NOVO CASAMENTO
Entre a vontade de Deus e a dureza do coração humano
RESUMO
Este estudo analisa o ensino bíblico sobre o divórcio e o novo casamento à luz das palavras de Jesus e da doutrina apostólica, em contraste com as concessões pastorais e leituras acomodadas comuns no contexto eclesiástico contemporâneo. Demonstra-se que o divórcio não pertence ao propósito original de Deus para o matrimônio, tendo sido apenas tolerado em razão da dureza do coração humano, sem jamais ser apresentado nas Escrituras como norma ou ideal para a igreja.
A análise dos principais textos do Novo Testamento evidencia que Jesus não institui exceções que legitimem o novo casamento enquanto o cônjuge vive, nem mesmo em casos de adultério. Ao contrário, o ensino bíblico afirma a indissolubilidade do casamento, confirmada pelos escritos paulinos, concluindo que a normalização do divórcio e do novo casamento representa uma ruptura com a fidelidade bíblica, e não uma expressão legítima de graça ou compaixão.
INTRODUÇÃO
Poucos temas geram tanta controvérsia dentro da igreja quanto o divórcio e o novo casamento. Trata-se de um assunto sensível, carregado de dor, fracassos, traumas e histórias pessoais profundas. Justamente por isso, tornou-se um terreno fértil para acomodações teológicas, leituras seletivas da Escritura e discursos pastorais que, na tentativa de aliviar o sofrimento humano, acabam relativizando a vontade de Deus. O resultado é uma tensão permanente entre o que a Bíblia ensina e o que, na prática, passou a ser aceito como normal dentro das comunidades cristãs.
Este estudo não nasce do desejo de ferir pessoas, expor histórias individuais ou negar a realidade do sofrimento conjugal. Pelo contrário, parte da convicção de que a verdadeira compaixão nunca pode ser construída à custa da verdade. Quando a igreja altera o padrão divino para torná-lo mais “suportável”, ela não cura feridas, apenas as encobre, enquanto enfraquece a autoridade das Escrituras e obscurece o caráter santo de Deus.
Ao longo do tempo, o discurso dominante tem seguido um padrão previsível: afirma-se que o divórcio não é a vontade de Deus, mas, logo em seguida, introduzem-se exceções que, na prática, anulam essa afirmação. Textos isolados são utilizados para justificar o segundo casamento, enquanto o ensino claro e repetido de Jesus é reinterpretado, suavizado ou silenciosamente ignorado. Este trabalho propõe o caminho oposto: partir da vontade de Deus revelada nas Escrituras e submeter a ela nossas leituras, práticas pastorais e conclusões teológicas.
Portanto, o objetivo deste artigo é examinar, de forma bíblica, textual e coerente, o ensino de Jesus e dos apóstolos sobre o divórcio e o novo casamento, demonstrando que tais práticas não apenas não correspondem à vontade de Deus, mas se colocam em oposição direta a ela. Não se trata de discutir casos particulares ou elaborar soluções pragmáticas, mas de responder a uma pergunta fundamental: o que Deus revelou, de fato, sobre o casamento, sua permanência e seus limites? A resposta a essa pergunta exige honestidade exegética, coragem pastoral e disposição para colocar a vontade de Deus acima das pressões humanas.
O DIVÓRCIO NÃO É A VONTADE DE DEUS
Todos os teólogos e pastores que tratam deste assunto iniciam seu discurso com a frase: “O divórcio e o novo casamento não são a vontade de Deus” ecoando, assim, o ensinamento de Jesus em Mt 19:8c: “não foi assim desde o princípio”, ou seja, o divórcio não foi o plano de Deus ao idealizar a família.
No mesmo texto, Jesus afirma que o divórcio foi tolerado por Moisés porque os judeus tinham o coração duro (Mt 19:8) “Moisés deu essa permissão por causa da dureza do coração de vocês”, deixando claro que havia uma tensão entre os judeus e a vontade de Deus, consequentemente, ou Moisés tolerava, mesmo que não fosse a vontade de Deus, ou os judeus continuariam a cometer atrocidades contra suas mulheres. Jesus usou a palavra grega sklērōkardía que significa “coração duro”, uma expressão bíblica usada para designar insensibilidade espiritual e moral, teimosia ou resistência à vontade de Deus.
Naquele momento, por causa da situação, Moisés preferiu preservar a integridade das mulheres, porém, isso jamais deveria ser usado para justificar, hoje, um grave erro que remonta há mais de três mil anos, a menos que a igreja não tenha evoluído nem aprendido nada, e permanece com o coração endurecido, fazendo guerra à vontade de Deus.
NÃO É A VONTADE DE DEUS, MAS…
Observando diversos textos e discursos de pastores e teólogos a respeito do divórcio e do novo casamento, pode-se perceber que todos afirmam a frase “Não é a vontade de Deus, mas…”. Até o “não é a vontade de Deus” eles acertam, são respaldados pela escritura, quando inserem o “mas…”, daí é ladeira abaixo para longe da vontade de Deus. A partir do “mas…” eles tiram Deus de cena, silenciam sua vontade e passam a justificar um pecado afirmando que apesar de não ser a vontade de Deus, infelizmente acontece. Sim, é fato que acontece, é uma realidade que deve receber atenção da igreja assim como o adultério, os vícios, a mentira, e todos os demais pecados, mas não justificados e normalizados pelo simples fato de acontecer. A missão da igreja não é normalizar aquilo que não é, nunca foi, e nunca será a vontade de Deus.
Portanto, o pressuposto deste artigo é que se não é a vontade de Deus, não importa se foi aceito ou tolerado pelos judeus ou outros povos, até porque homens teimosos com o coração duro não deveriam jamais ser exemplo para a igreja, a menos que os corações da igreja continuem duros mesmo depois de receber a salvação e o Espírito Santo, o que parece bastante contraditório. E, ainda que esses corações sofram de intensa sklērōkardía, sua mensagem deve ser fundamentada sempre na vontade de Deus e jamais em seus próprios sentimentos enganosos. Não façam guerra contra a vontade de Deus, mas guerreiem contra seus corações endurecidos e falem sempre a verdade, ainda que lhes custe um alto preço.
Não basta afirmar que o divórcio não é a vontade de Deus, é preciso lembrar que Deus odeia o divórcio, e para a Bíblia chegar ao ponto de falar que Deus odeia algo, é porque este algo é realmente reprovável. No livro de Ml 2:16, está escrito: “Pois o SENHOR Todo-Poderoso de Israel diz: Eu odeio o divórcio”, repare que o Senhor fala na primeira pessoa do singular: “Eu odeio o divórcio!”. Não é absurdamente estranho que muitos crentes defendam, uma vez que o Deus que eles servem odeia?
A palavra traduzida como divórcio em Ml 2:16 é שַׁלַּח (shalach) que literalmente significa “mandar embora/expulsar”, e não significa apenas o ato de repudiar sem se divorciar, mas significa separação definitiva, ou seja, repúdio seguido de divórcio, e a palavra traduzida do hebraico como “odeia” éשָׂנֵא (śānê’), literalmente é quando alguém sente forte aversão ou detesta algo.
Agora fica a pergunta: “Se não é a vontade de Deus e se ele odeia, e se Moisés permitiu unicamente por causa da dureza dos corações dos judeus, é impossível que alguém de alguma forma seja favorável a tal prática e ainda assim dizer que faz a vontade de Deus. Qual deus? Ou então, em último caso, estão na mesma situação dos judeus do AT.
JESUS REPROVA O SEGUNDO CASAMENTO ATÉ EM CASO DE ADULTÉRIO
Outro erro comum entre os que defendem o divórcio seguido de novo casamento é afirmar que em caso de adultério, o cônjuge traído está livre para se casar com outra pessoa baseando-se em um único versículo isolado de Mt 19:9 que será analisado posteriormente. A verdade é que Jesus reprova o segundo casamento mesmo após adultério e abandono, como pode ser observado em Lc 16:18 “Se um homem se divorciar e casar com outra mulher, comete adultério. E quem casar com a mulher divorciada também comete adultério”. Observe que o homem deste texto se divorciou e mesmo divorciado, cometeria adultério se casasse com outra, e sua mulher, que foi abandonada, sofreu o adultério, se ela se casasse com outro, também cometeria adultério. Isso porque para Deus a única coisa que anula um casamento é a morte de um dos cônjuges.
Outro texto importante é Mateus 5:31-32, o qual deve ser usado como base para a interpretação de Mt 19:9 e esclarece efetivamente que não existe uma “Cláusula de Exceção” liberando o cônjuge traído para novo casamento, pelo contrário, Jesus reprova tanto o divórcio quanto o novo casamento em ambos os textos como será analisado a seguir:
Mateus 5:31, 32 Foi dito também: “Quem mandar a sua esposa embora deverá dar a ela um documento de divórcio.” Mas eu lhes digo: todo homem que mandar a sua esposa embora, a não ser em caso de adultério, será culpado de fazer com que ela se torne adúltera, se ela casar de novo. E o homem que casar com ela também cometerá adultério.
O texto acima é claro. Em primeiro lugar, Jesus cita o que foi estabelecido por Moisés, que os judeus deveriam conceder uma carta de divórcio ao mandar suas esposas embora. Contudo, o próprio Jesus corrige essa prática ao afirmar que, ao repudiar a mulher, o marido a expunha ao adultério caso ela viesse a se casar com outro homem.
A exceção mencionada por Jesus é igualmente clara: ela não concede, em hipótese alguma, liberdade para um novo casamento. O sentido é outro. Caso a mulher já tivesse traído o marido e, por essa razão, ele a mandasse embora, ele não estaria expondo-a ao adultério, pois ela já se encontrava em condição adúltera em virtude da traição cometida.
Porém, se ela não tivesse traído, o marido, ao repudiá-la, estaria de fato expondo-a ao adultério, ainda que houvesse divórcio formal. Esse entendimento está em plena consonância com o que foi afirmado anteriormente em Lc 16:18.
Observa-se, portanto, que a intenção de Jesus é exatamente o contrário do que muitas vezes se prega. Em outras palavras, ele afirma: “Ainda que Moisés tenha permitido o divórcio formal, quem se divorcia expõe o cônjuge ao adultério, exceto quando esse cônjuge já tenha cometido adultério. Nesse caso, ao mandar a mulher embora, o marido não a expõe ao adultério, pois ela já se encontra nessa condição.”
Percebe-se, assim, que a exceção mencionada por Jesus não diz respeito à permissão para um novo casamento, mas à questão de o homem expor ou não a mulher ao pecado do adultério.
Não há, nesse texto, qualquer menção a um segundo casamento, nem tampouco em outros textos do Novo Testamento, com exceção de 1Co 7:39. Nesse versículo, o apóstolo Paulo reforça ainda mais o ensino de Jesus ao afirmar que a mulher está ligada ao marido enquanto ele vive e que somente após a morte do cônjuge ela fica livre para contrair novo casamento: 1Co 7:39 “A mulher está ligada enquanto vive o marido; porém, se o marido morrer, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor.”
Neste texto, Paulo afirma que a mulher está ligada ao marido enquanto ele estiver vivo, não enquanto estiverem casados, pois somente com a morte do marido ela estaria livre. É evidente que Paulo não se refere a uma mulher casada vivendo normalmente com seu marido, pois é óbvio que uma mulher casada está ligada ao marido. Não seria necessário o apóstolo falar algo tão óbvio, mas aqui ele se refere a uma mulher separada/divorciada, porém, ligada ainda, pois tornaram-se uma só carne com o casamento e Jesus foi claro que aquilo que Deus uniu o homem não separa.
Além desse texto, há também a afirmação de Rm 7:2-3, que, embora seja utilizada como ilustração teológica, apresenta um princípio jurídico claro: a morte encerra o vínculo matrimonial. Soma-se a isso 1Tm 5:14, onde Paulo recomenda de forma explícita o novo casamento para viúvas jovens: “Quero, portanto, que as viúvas mais jovens se casem, tenham filhos…”
Voltando a Mt 5:32, espera-se que até aqui o leitor já tenha compreendido que o texto não cita em nenhum momento uma liberação para um segundo casamento, mas faz exatamente o contrário, afirmando que este segundo casamento será responsável por colocar o cônjuge divorciado em uma situação de pecado e corrigindo o ensino de Moisés que ensinava o homem dar a carta de divórcio ao mandar sua mulher embora, ou seja, ao se separar. E Lc 16:18 reforça que mesmo divorciados, se o marido ou a esposa casassem novamente, ainda que a mulher fosse abandonada e sofresse o adultério, estariam pecando, ficando claro que não existe no ensinamento de Jesus nenhuma exceção que liberava para alguém cometer adultério.
Será analisado agora o versículo mais crítico, pois, quando mal lido, o leitor pode ter a impressão de que Jesus mudou seu discurso. Porém, não é isso que acontece. Jesus disse exatamente a mesma coisa que Mc 10:11-12, Lc 16:18 e Mt 5:32, até porque este versículo traz exatamente o mesmo conteúdo, e aqui ele não está ensinando algo novo, apenas repetindo o que já fora dito:
Mt 19:9 “Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério.” A exceção aqui é exatamente a mesma dos outros versículos em que Jesus repete o discurso. O sentido é que, se o homem se divorciar de sua mulher sem tê-la traído e se casar com outra, ele está se expondo ao adultério; porém, se já a traiu, então já se encontra em situação de adultério.
Explicando melhor, este versículo poderia ser traduzido assim: “Quem deixar sua mulher, sem ter cometido adultério durante o casamento, e se casar com outra, se torna adúltero ao se recasar.” Quem trai neste texto é o marido, não a mulher. A exceção está se ele entrou em adultério durante o casamento, ou após o divórcio. A preocupação de Jesus é, assim como nos demais textos, um dos cônjuge se divorciar e se tornar adúltero pelo segundo casamento. Veja esta ilustração que mostra exatamente a mesma ideia de Jesus em Mateus 19:9: “Se um homem deixa uma empresa sem jamais ter fraudado seus relatórios e, ao ingressar em outra, passa a fraudar, é nesse segundo vínculo que ele se torna fraudador. Mas, se já havia fraudado antes, o novo emprego não o torna fraudador, pois essa condição já existia.”
A preocupação de Jesus é a mesma em todos os textos, Mc 10:11-12, Lc 16:18, Mt 5:32 e Mt 19:9: “Se vocês se deixarem, estarão sujeitos a se tornarem adúlteros se casarem com outra pessoa, se ainda não se tornaram durante o casamento”. A preocupação de Jesus é que a separação sem traição prévia expunha ambos os cônjuges ao pecado do adultério, e não a criação de uma exceção àquilo que Deus mais odeia, que é o divórcio ou o segundo casamento.
Três pontos importantes nesse texto, frequentemente ignorados pelos estudiosos, são os seguintes: se a mulher traísse o marido, ela seria morta, e, obviamente, ele estaria livre. Portanto, não faz o menor sentido afirmar que Jesus estaria liberando o marido traído para se casar novamente; o marido traído era, em geral, um marido viúvo.
Em segundo lugar, Jesus sabia que se desse essa permissão ao homem traído deixar a esposa, estaria ele expondo essa mulher a uma condenação quase absoluta, porque na grande maioria das vezes, o cônjuge que traiu estaria debaixo de uma maldição terrível pois certamente casaria novamente, trazendo sobre si a destruição, considerando que a Bíblia é muito clara ao afirmar que os adúlteros não herdarão o reino de Deus (1Co 6:9). Além de estimular a falta de perdão, a destruição da família, o trauma dos filhos com o divórcio e a culpa que quem traiu carregaria por toda a vida. Qualquer pessoa que conhece um pouco de Jesus sabe que ele jamais ensinaria uma coisa dessas, pelo contrário, com certeza ele ensinaria o perdão, a restauração, o setenta vezes sete, além de que ele, mais que ninguém, estava de fato preocupado em evitar a exposição dos cônjuges ao pecado de adultério, e, caso um dos cônjuges caíssem nesse pecado e não fossem apedrejados pelos judeus, Jesus faria de tudo para que não permanecessem no erro, mas com essa “Regra de Exceção” estaria empurrando o cônjuge que traiu no abismo com a certeza de que casaria com outro. Chega a ser bizarro pensar que Jesus faria isso. Uma irresponsabilidade que destruiria milhares de famílias e colocaria milhões de pessoas que traíram em um estado de condenação.
Em terceiro lugar, aqueles que afirmam que, nesse texto, a palavra usada se refere apenas ao repúdio, e que Deus condenaria somente o homem que repudiasse a mulher sem lhe dar a carta de divórcio e depois ficasse com outra, caem em uma grande contradição. Isso porque, se Jesus tivesse liberado o homem a se casar com outra em caso de traição, e se a palavra apolýō (repúdio) não significasse divórcio, então Ele estaria liberando a poligamia, já que o marido traído estaria livre para se casar com outra apenas repudiando sua mulher e permanecendo oficialmente com duas esposas. Trata-se de uma aberração teológica sem qualquer fundamento.
Portanto, o texto, embora utilize apolýō (repúdio) e não apostásion (divórcio), trata de um repúdio seguido de divórcio. É por isso que algumas versões da Bíblia em língua portuguesa traduzem apolýō como “divórcio”. Quem, depois dessa explicação, continuar diferenciando apolýō de apostásion deverá, obrigatoriamente, afirmar que Jesus aprovou, segundo sua teologia, a poligamia e o sofrimento das mulheres que eram apenas repudiadas e viam seus maridos casados com outra e sofrendo todas as consequências de uma repudiada. Jesus jamais faria isso.
Para concluir, vale citar também o texto de Mc 10:11-12 que traz ainda mais luz a este tema: “E Jesus respondeu: Todo aquele que se divorciar de sua mulher e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério contra ela. E se ela se divorciar de seu marido e se casar com outro homem, estará cometendo adultério”. Aqui, tanto o homem que deixa a mulher quanto a mulher que deixa o homem e se casa com outro, cometem adultério. Em todos os textos, a mensagem de Jesus é uma só: “Não se separem, pois estarão caindo em adultério e isso lhes trará consequências eternas” e “Não exponham seu cônjuge ao adultério se divorciando dele(a)”.
Em nenhum texto Jesus orienta pelo divórcio, sequer cita esse assunto, a única exceção, como já dito anteriormente, é: “se seu cônjuge não cometeu adultério e você deixá-lo, vai expor ao pecado, se já cometeu, a possível separação não vai expor pois já está em adultério”, mas em nenhum momento Jesus aconselha o divórcio como tantos dizem, muito menos um segundo casamento enquanto o cônjuge está vivo. Isto é uma aberração teológica e uma afronta à santidade de Deus que deixou claro seu ódio por tal prática.
O QUE FAZER EM CASO DE TRAIÇÃO OU ABANDONO
A Bíblia, especialmente o Novo Testamento não diz diretamente o que fazer em caso de traição, porém o cônjuge tem duas opções: em primeiro lugar o perdão e a busca por cura juntamente com o cônjuge, se ele aceitar, ou na pior das hipóteses quando a mulher ou o homem estão sob algum risco, deve seguir o conselho do apóstolo Paulo em 1Cor 7:10-11: “Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido, se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido; e que o marido não se aparte de sua mulher”.
Paulo, em total harmonia com os ensinamentos de Jesus, diz que o Senhor ordena que a mulher não se separe do marido, repare que o texto usa o verbo grego παραγγέλλω (parangéllō) na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo ativo que significa uma ordem autoritativa: “Não separe do marido”, mostrando que ambos devem lutar com todas as forças, buscar socorro, pedir ajuda, para manter o matrimônio, mas em última hipótese, não havendo resultado, o texto ensina: “se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido”.
Paulo anula toda e qualquer chance de um segundo casamento e aconselha que mesmo separados, o casal deve procurar pela cura de ambos e a restauração, não havendo, fique sozinha(o).
Já no caso de abandono, há quem interprete o texto do mesmo Paulo em 1Co 7:15 como se fosse uma liberação ao segundo casamento, como se Paulo fosse bipolar e confuso. Imagina, em 1Co 7:10 Paulo é enfático em ordenar que não é para separar, porém, se separar, não é para casar novamente, e logo na sequência, apenas 5 versículos depois ele já muda de ideia e libera o segundo casamento? No mínimo contraditório e indeciso. Mas não, Paulo não libera o segundo casamento, ele apenas tira o peso da consciência da irmã, caso seu marido seja um descrente e queira o divórcio, dizendo que a mulher, neste caso não é obrigada a ficar lutando por seu casamento como no exemplo anterior do versículo 10. 1Co 7:15 “Todavia, se o descrente separar-se, que se separe. Em tais casos, o irmão ou a irmã não fica debaixo de servidão; Deus nos chamou para vivermos em paz”.
Os defensores do segundo casamento fazem uma colcha de retalhos com todos estes textos afirmando que cada texto servia para um grupo específico, pois cada autor escreveu para um grupo diferente, e toda vez que o texto reprova serve apenas para a igreja de Corinto por exemplo, mas quando o texto parece que autoriza, daí é para a igreja atual. Porém, há coerência nos ensinos de Jesus pela ótica dos autores dos evangelhos como por Paulo aos Coríntios. Eles não eram confusos, pelo contrário, tinham bastante coerência em seus ensinos. Qualquer leitor atento pode encontrar diversas incoerências em textos ou discursos daqueles que usam a Bíblia para justificar o adultério, o divórcio e o segundo casamento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste estudo, tornou-se evidente que o divórcio e o novo casamento não apenas se distanciam da vontade de Deus, mas se colocam em clara antítese a ela. A Escritura, quando lida de forma honesta, coerente e respeitando seu contexto histórico, linguístico e teológico, apresenta uma linha contínua e harmônica: Deus instituiu o casamento como uma aliança indissolúvel entre um homem e uma mulher, rompida somente pela morte. Tudo o que foge a esse princípio nasce da dureza do coração humano, jamais do propósito divino.
O erro recorrente da igreja não tem sido ignorar o texto bíblico, mas relativizá-lo. Afirma-se corretamente que “não é a vontade de Deus”, porém, logo em seguida, cria-se um “mas” que silencia a voz divina e dá lugar à acomodação pastoral, à pressão cultural e aos sentimentos humanos. Esse movimento transforma exceções mal compreendidas em regras, tolerâncias históricas em permissões eternas e misericórdia em conivência com o pecado.
Jesus não flexibilizou o ideal do casamento; pelo contrário, o restaurou ao seu sentido original. Em nenhum momento ele autorizou o segundo casamento enquanto o cônjuge vive, nem mesmo em casos de adultério ou abandono. A chamada “cláusula de exceção”, quando analisada à luz de todo o ensino de Jesus e confirmada pelos escritos paulinos, não libera um novo vínculo, mas expõe a gravidade do pecado e a responsabilidade moral envolvida na separação.
Paulo, longe de contradizer Jesus, reforça sua doutrina com ainda mais clareza. Ao usar um verbo de ordem autoritativa para proibir a separação e, na pior das hipóteses, limitar as opções à reconciliação ou à permanência solteira, ele elimina qualquer brecha para a normalização do segundo casamento. A igreja que ensina o contrário não está sendo mais graciosa, apenas menos fiel.
Diante disso, a pergunta final não é se o divórcio e o novo casamento acontecem, pois acontecem, mas se a igreja foi chamada para justificar o que acontece ou para proclamar o que Deus ordena. A missão da igreja nunca foi adaptar a vontade de Deus à fragilidade humana, mas confrontar a fragilidade humana com a vontade santa e imutável de Deus, oferecendo arrependimento, cura e restauração, não legitimação do pecado.
Se Deus odeia o divórcio, se Jesus reprova o novo casamento e se os apóstolos confirmam esse ensino, qualquer tentativa de defender tais práticas em nome da fé cristã resulta, inevitavelmente, em contradição teológica. Permanecer fiel a esse ensino pode custar rejeição, perda de status e até isolamento ministerial, mas a verdade bíblica nunca prometeu conforto. Entre agradar aos homens e permanecer na vontade de Deus, a escolha que se impõe à igreja é clara.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA HEBRAICA STUTTGARTENSIA. Editio quinta emendata. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2011.
NOVUM TESTAMENTUM GRAECE. 28. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.